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Mito #2 — A pressa é inimiga da Terra
Sobre a ilusão de que o planeta se salva correndo mais depressa do que a sua própria sombra.
(6 de novembro de 2025)
Vivemos obcecados pela mudança. Pela velocidade, pela inovação, pelo verbo “acelerar”.
Acreditamos que quanto mais depressa mudarmos, mais depressa salvaremos o planeta — como se a Terra estivesse à espera do nosso sprint tecnológico para respirar de alívio.
Mas há algo profundamente irónico nesta pressa. Chamamos-lhe transição energética, revolução verde, economia limpa — e esquecemo-nos de perguntar o essencial: para onde estamos a correr?
A pressa da transição não é movida pela maturidade, mas pela ansiedade.
Ansiedade de continuar a crescer, de não perder o comboio do mercado, de manter a promessa de que é possível “mudar tudo” sem mudar nada no essencial.
Troca-se o petróleo pelo lítio, o barril pela bateria, o poço pela mina — e chama-se a isso futuro.
Mas a lógica é a mesma: extrair, acumular, descartar.
O lítio não é um combustível fóssil — é pior: é o espelho metálico da nossa incapacidade de aprender com o passado.
A sua exploração repete os mesmos erros coloniais e extrativistas, apenas com rótulos mais elegantes.
As florestas continuam a cair, os lençóis freáticos continuam a secar, e as populações locais continuam a pagar o preço da pressa alheia.
Há um tempo da natureza que não se negocia, e um tempo humano que não se recupera.
A maturação — esse verbo que ninguém tem paciência de conjugar — é o que transforma mudança em evolução.
É o que separa o gesto impaciente do ato sábio.
Mas a nossa civilização, habituada ao imediatismo digital, confunde movimento com progresso.
E assim avança em círculos, correndo com tanto entusiasmo que já nem repara no chão que vai corroendo.
Talvez o verdadeiro gesto revolucionário hoje seja abrandar.
Não por inércia, mas por inteligência.
Porque a pressa, essa velha inimiga da reflexão, tornou-se agora também inimiga da Terra.
*Texto integrante da série Mitos Urbanos da República, inserida no projeto **República dos Desafectos, S.A.***