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A incoerência confortável
O problema de estudantes de múltiplas nacionalidades que procuraram na Ucrânia a possibilidade de tirar um curso de Medicina a custo “controlado” e reconhecido na Europa é complexo. Humanamente, enquanto fugiam da guerra, tinham todo o direito de ser acolhidos em qualquer país — e qualquer país o dever de os proteger.
Contudo, após esse período inicial, e embora comece por sentir algum desconforto em assumir esta posição, quando me coloco no papel de cidadã que vive numa sociedade com regras e prioridades, não posso deixar de pensar que o “precalço” na futura vida profissional desses estudantes — que, a julgar pela possibilidade de estudarem no estrangeiro, pertencem muito provavelmente a grupos socioeconomicamente bem posicionados nos seus países — não pode nem deve ser responsabilidade de países terceiros.
Às vezes tenho a sensação de que os governos empenham tempo, discussão, reflexão e recursos que são de todos nós — nação — para resolver questões que não nos são de todo prioritárias, única e exclusivamente pelo facto de que as outras, as nossas verdadeiras questões, são muito mais difíceis de enfrentar e resolver. E assim, os dias passam mais leves para quem governa.
No fundo, o que me inquieta é perceber como, se não pararmos e não refletirmos, remetemos a nossa consciência para uma incoerência confortável — aquela em que é mais fácil parecermos bons do que sermos justos.